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Getúlio

Acabei de ler Getúlio 1882 – 1930. Uma boa leitura, algo que consegui ler até no ônibus durante as viagens Fortaleza-Quixadá. Como o lançamento é recente, não faltam avaliações de gente mais competente em jornais ou outros blogs. Prefiro falar sobre o que aprendi sobre a figura de Getúlio do que sobre os méritos literários do livro.

Não há como falar de Getúlio sem falar do Rio Grande. E não há como falar do Rio Grande de Getúlio sem mencionar a Revolução Federalista. Foi um conflito sangrento logo após a Proclamação da República que dividiu o estado por anos. De um lado, os “maragatos” que faziam oposição ao modelo da república recém criada. Do outro, os “pica-paus”, seguidores de Júlio de Castilhos, governador rio-grandense e vedete do positivismo brasileiro. Com o apoio federal, os “pica-paus” venceram, porém o sangue derramado manchou as relações políticas gaúchas por muito tempo. As estimativas são de 10.000 mortos. O pai de Getúlio, o veterano da Guerra do Paraguai Manoel Vargas, foi “pica-pau” e essa foi a vertente política adotada pela família. Acho que até que o livro poderia dedicar um pouco mais de atenção a Revolução Federalista, mas como é uma biografia de Getúlio, natural considerar que o leitor já tenha conhecimento de eventos importantes da história do Brasil.

Getúlio desenvolveu sua carreira política em um estado onde brigar com a oposição não significava apenas por em risco a governabilidade, pois sempre havia a possibilidade real de desentendimentos levarem a uma guerra civil. Talvez por isso, nos anos posteriores, ele demonstrou uma hesitação em romper abertamente com Washington Luís que quase levou à loucura seus aliados mais próximos, como João Neves da Fontoura e Osvaldo Aranha. E são os capítulos finais, que relatam toda a organização política para formação da Aliança Liberal e do Golpe de 30, que fornecem os momentos mais emocionantes do livre. É possível sentir nas páginas a tensão em que Getúlio se encontrava, forçado a tomar uma posição contra o governo do qual fizera parte como ministro. Para mim, fica sempre a dúvida: era Getúlio muito cauteloso ou um verdadeiro mestre Sith, sempre moldando a realidade de acordo com seus desejos, sem nunca se expor totalmente.

Uma boa leitura. E com certeza irei atrás das outras biografias escritas pelo Lira Neto, em especial a de Padre Cícero.

Greve todo ano?

Um serviço essencial para a população deve sim ter sua tarifa controlada. Entretanto, mesmo que o poder aquisitivo da população cresça, o lucro dos empresários não aumentará. Afinal, ninguém gasta o dinheiro extra do final do mês em viagens de ônibus.

O poder aquisitivo da camada mais pobre da população brasileira cresceu nos últimos anos. Isso, claro, levou a uma inflação um pouco maior. Portanto, é válida a reclamação dos trabalhadores do transporte público por melhores salários.

Em um cenário em que a tarifa não é ditada pelo mercado e há pressão por aumentos por parte dos motoristas e cobradores, a única solução é diminuir o lucro dos empresários. Enquanto tais lucros são exorbitantes, a sociedade bate palmas. Mais se o cenário continuar se repetindo, a tendência é um lucro cada vez menor. Quem vai investir em um negócio no qual a previsão é diminuição de lucro? O jeito vai ser economizar em outras áreas, manter a frota sucateada e as linhas com cada vez menos ônibus.

O que estou querendo dizer que é uma tarifa fixa é uma abominação em uma economia de mercado. Isso todo mundo sabe. Mas também deixá-la flutuar pode ser prejudicial a população. Não conheço o modelo de concessão da prefeitura de Fortaleza. Mas assim como para outros serviços essenciais, é importante ter competição. Talvez contratos mais curtos, divisão de linhas mais lucrativas baseada no desempenho da empresa, não sei qual seria o ideal. Agora enquanto algum dos prefeituráveis não sentar a bunda no escritório e imaginar uma solução, todo ano teremos o mesmo sufoco.