Era após-PC: agonia dos ‘micreiros’?

O pessoal bate muito na Microsoft, mas acho que ela foi responsável por boa parte da liberdade que existe no mundo dos PCs. Nos primórdios, a opção da Apple era vender o kit [soft|hard]ware completo, imutável. Nem sei se na época existia o mercado de peças avulsas. As máquinas eram realizações da visão perfeccionista de Steve Jobs, na qual até os fios tinha que seguir uma disposição estética agradável. A Microsoft apostou que o hardware era commodity, o importante mesmo era o software. O sucesso do Windows garantiu a existência de vários fornecedores de PCs, não tardou para surgir um mercado de peças avulsas, permitindo que adolescentes e pós-adolescentes do mundo inteiro se divertissem montando suas máquinas. No Brasil, essa classe recebeu até o apelido de ‘micreiros’, sendo responsável pelo primeiro computador de muitos usuários.

O mercado cresceu, o país evoluiu e se abriu um pouco mais ao exterior, hoje o ‘micreiro’ não existe mais. É possível comprar um Lenovo (antiga divisão de hardware da IBM) razóavel por R$ 1.200,00. Até as lojinhas antigas se profissionalizaram, algumas até exibem logotipos nas máquinas que vendem. O advento do notebook como computador principal contribuiu para o cenário atual, afinal não dá para comprar peças avulsas e montar um notebook (dá, mas com trabalho ;)). Mesmo assim, ainda dá para comprar a placa mãe, o processador, memória e outras peças e montar seu micro. E nunca foi tão barato fazer isso como hoje.

No mundo após-PC, como ficará a situação dos ‘hobbistas’? Infelizmente, a tendência é ficar cada vez mais complicado. Não dá para montar um notebook, imagine um tablet ou smartphone! E a própria Microsoft, que valorizava o software, acabou adotando a estratégia da concorrência e lançando um casadinho hard+soft como estratégia para o após-PC. Se as máquinas modernas tomarem conta do mercado, qual o incetivo para um fabricante colocar no varejo um processador avulso? Talvez até o conceito de uma placa-mãe deixe de existir! Tente chegar numa loja de informática e comprar um processador ARM Snapdragon. Não vai conseguir, pode ter certeza. O chato dessa situação é que devemos dar adeus aos upgrades. Hoje podemos comprar um bom desktop e depois um ano aumentar a memória, colocar um SSD, e ter uma sobrevida em termos de desempenho. No tablet ou smartphone, o jeito é comprar um novo. O cenário fica até pior se o fabricante se recusar a atualizar o software.

A situação só não é lástima total porque ainda existem projetos voltados a criação de hardware customizado. Por exemplo, o Arduino e o mais recentemente, o Raspberry Pi. Ambos são voltados para um perfil de usuário semelhante ao antigo micreiro, conhecido fuçador. Porém, falta ainda um produto forte criado a partir dessas soluções para justificar a criação de um mercado semelhante à era PC. Se nada do tipo aparecer logo, os projetos perderão fôlego e podem acabar. Ficaríamos então com um mercado sem opção de customização acessível de hardware, totalmente controlado pelos fabricantes, interoperabilidade zero e preço nas alturas.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: